terça-feira, 7 de julho de 2015

A sagração da primavera

A estreia da obra de Stravinsky foi um dos maiores escândalos da história da música

Fazia calor em Paris naquela quinta-feira, 29 de maio de 1913. No começo da noite uma multidão começou se aglomerar em frente ao Teatro do Champs-Élysées, onde o empresário Serge Diaghlev apresentava uma série de espetáculos de música e dança.

Rumores circularam o dia inteiro sobre a nova estreia, o balé A sagração da primavera, com música da autoria do então jovem compositor russo Igor Stravinsky, e coreografia de Nijinsky.

A noite começou com uma sonolenta remontagem de As sylphides de Chopin. Após a pausa, o teatro escureceu novamente. E então um fagote, tocando no seu registro mais alto, como se fosse em falsete, flutuou sobre a orquestra. Feixes de melodias enredadas, como se tivessem brotado da terra, ecoaram pela sala. “Terror sagrado em plena luz do dia”, definiu Stravinsky no programa.

A audiência ouvia em relativo silêncio, embora a música, cada vez mais intensa e cheia de dissonancias, causasse aqui e ali a sonora movimentação de pés, pulseiras e murmúrios. E então veio o choque: na forma de harmonia, ritmo, imagem e movimento, tudo ao mesmo tempo. Ao invés dos floreios elegantes do balé clássico a coreografia de Nijinsky era uma quase anarquia de pulos ferozes e selvagens, os bailarinos circundando nervosamente o palco em um misterioso ritual pagão, mágico e primitivo.

Gritos de protesto e vaias começaram a emergir dos camarotes, e da seção onde ficavam os lugares mais caros da plateia. Logo ficou impossível ouvir a orquestra, mesmo o enorme estampido final. Foi um dos maiores escândalos da história da música.

Mas não durou muito.

Logo os parisienses foram se dando conta que as ousadias harmônicas e rítmicas de Stravinsky não eram tão inéditas assim. O prelúdio Tarde de um fauno, de Debussy, havia causado barulho semelhante na temporada anterior.

As apresentações seguintes lotaram, e em questão de dias, a oposição sumiu: a vaia virou aplauso, a confusão virou deleite. Quando estreou de novo, menos de um ano depois, a obra foi saudada com uma enorme exaltação, e desde então passou a ser alvo de uma adoração febril. Stravinsky não podia mais andar nas ruas de Paris sem que uma multidão o seguisse.


Assim Alex Ross descreve a estreia da Sagração no seu O resto é ruído (Cia das Letras, 2009).

Veja um trecho da coreografia de Maurice Béjart para a obra de Stravinsky.

E como teria a sido a estreia da Sagração da primavera no documentário da BBC Riot at the Rite. (Obs: o concerto começa por volta dos 48 minutos).

A noite do mais célebre escândalo da história da música recriada pelo diretor Jean Kounen, no filme Coco Chanel e Igor Stravinsky. (Por volta dos 6 minutos).

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